Só palavras

   

   A angústia persiste, principalmente pela frequência de nossos encontros, esses que ganharam um intervalo de tempo maior àquele por mim aspirado. Então respiro profundamente, insuflo meus pulmões e solto um sopro de alívio ao terminar a carta. É como se eu a tivesse a escrito inteira em estado de apneia. Ao final meu semblante sofre os estigmas dessa tardia consciência sobre nós, na verdade da exposição e diálogo sobre isso. Nesse desfecho anseio ainda pelo seu olhar indulgente, sendo benigna com todas as minhas palavras atrasadas e inelutáveis.

 (…)

       Nosso (meu) amor é uma patologia e meu quarto transformou-se nos últimos dias em uma clínica sentimental. Há anos fui contaminada por essa doença, que muitas vezes foi confundida com paixão e ilusão. Convivo diariamente com a patologia do amor. São altos e baixos e já aceitei o fato de ser essa uma enfermidade incurável, desfrutando apenas de tratamento.

       Essa moléstia já é tão minha que não saberia viver sem ela, curo o ódio, a mágoa, a tristeza, a decepção… Não o amor, que carece de cura e do qual já aprendia a gostar… eu e ele vivemos em estado constante de simbiose. E se eu não estiver enganada, você também sofre desse “mal”. Nossos sintomas são diferentes, mas refletem apenas variantes do amor. E assim como Joyce te suplico: “Vença-me. Seduza-me. Fique comigo. Ah, faça-me sofrer!” Porque afinal, eu desconheço amor sem sofrimento (existe?).

       Abro baús antigos, revirando, despertando e procurando resquícios de um passado adormecido e repleto de consequências cataclísmicas.  E então as possibilidades de ação que se fizeram ausentes no momento em que o cenário era o presente saltam-me os olhos. Não solto lamurias na tentativa de corrigir um passado, mas sou tomada por uma remanescente chuva de “se´s” que imundam minha sala. Essa que mantenho clara, com as janelas abertas, permitindo que a luz da manhã me ilumine e na expectativa de que assim meus pensamentos e sentimentos abandonem essa névoa na qual se escondem e fiquem mais claros, para mim e para você.

            Penso em minha vida e naquilo que foi alterado, eliminado e acrescentado nos últimos anos, avalio se eu mudei e como, busco respostas para os meus sombrios devaneios. Tento inutilmente encontrar o momento de mudança, o fato que fizera que eu substituísse a compreensão pela indiferença, a permissividade (e olhe que sou muito permissiva) pela intolerância, os sonhos pela realidade e o que eu queria pelo que os outros desejavam/impunham. Percorro corredores mnemônicos na tentativa de encontrar em alguma porta a resposta, mas minha visão está turva e eu desamparada. Vejo Borges ao fundo, ele vem aos meus ouvidos e fala baixinho que eu, assim como ele, cometi o maior pecado que poderia cometer: não fui feliz. Mas serei, respondo a ele com um olhar confiante. Ele coloca a mão sobre o meu ombro, puxa minha cabeça de encontro ao seu peito num ato de carinho e some.

(…)

            Deixo então minha sala para adentrar no território do amor líquido, esse que tanto esnobei, despeço-me da minha soberba e arrisco-me a viver o amor das paixões efêmeras, dos desejos impensados, da alegria, da leveza, da descontinuidade, do imprevisível e da volatilidade. A verdade é que nada mais me amedronta, quebrei todas as correntes e sou livre. Não tenho insegurança e não me apavoro na eminência de cometer mais um erro, mesmo sendo os desdobramentos desse erro, a mim, infinitos.

            Todas essas minhas palavras organizadas nessas frases tortas fizeram com que eu refletisse ainda mais, de uma forma mais organizada eu diria. Sinto uma inquietação desconfortante que se revela furtivamente aqui dentro e que aos poucos permite que eu recupere uma força amena, que me fará prosseguir e manterá saudável esse meu inquieto coração. Numa linguagem cotidiana te digo: Quero pagar para ver! Quero provar dessa imagem quimérica que contemplo agora e que não procurei, mas que se revelou, encontrando-me em estado de espera.

            Diluo-me por fim nesse mar de possibilidades, libertando a fraqueza, o desconforto, a timidez, a inexperiência e viverei isso, se você me permitir.

 

Abraços,

Sofia Aimée

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4 comentários em “Só palavras

  1. Sim! É uma doença contagiosa… n consigo me livrar de ti. Vou embora, volto e n t largo, o nome disso? amor. Eu a amo, apesar dos pesares. Venha… permito o q quiser desde q ao meu lado esteja. desespera-me ver a qtd de posts nos ultimos dias, mas n consigo mais n me manifestar….. e tenha ctza q estou voltando antes p poder cuidar d vc, se quiser, fique uns dias la em casa, sei q vc esta de mudanca para sp, entao mate a saudade daquela casa q ja foi sua! N quero nd em troca, só me deixe te fazer bem. Queria entender como pessoas conseguem se calar frente a essas palavras, frente a tamanha beleza e doçura. Eu n consigo, por isso t quero minha e d mais ninguem. Pare com essa bobeira de amor liquido, tu sempre foi contra. TU É LINDA GURIA! lembra? texto lindo como todos os outros. Vontade da sua boca, do seu abraço e de t cuidar. Amanhão qd eu chegar: ATENDAAAAA O CELULAR! e se puder, me pega no aeroporto? kkkkkkKKKKKKKKKKKK

    t amo pqna. bjinhos

    Lari Cheder – e n delete o comentario! blz?

    1. Como sempre, delicioso ter você escrevendo aqui. Como sabe prefiro os textos ou o skype, rs.
      Bom saber que amanhã terei o seu abraço, estou precisando de você, conversar…

      Grande beijo,
      Sofia Aimée

  2. Queria q vc trabalhasse menos, me visse mais, aceitasse meus pedidos. E parasse de colecionar amores/desamores.

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