Reencontro

Marcos não via Clarice há meses. Fora uma opção dela, não dele. A separação ocorreu de forma tranquila, ele não sofreu como imaginou que sofreria, não pensou nela como acreditou que pensaria e tudo foi muito mais leve e gostoso ao que imaginou. Ele tinha tempo para si, podia ir ao cinema sozinho, ir ao museu sem hora para voltar, tomar o seu café e escrever, podia ficar em casa sem fazer nada, não tinha que ligar para ninguém, tinha silêncio e apreciava isso. Estava feliz. Estava feliz sem Clarice.  Mas a verdade é que ainda que ambos estivessem  separados, em relacionamentos distintos ou sozinhos, algo sempre os uniu, uma atração sem nome. Quero, mas não posso. Vou, mas estou errado. Ligo, mas é só para saber como está. E mais outras tantas antíteses. Marcos sentia-se como um poeta barroco: entre o céu e o inferno. Naquela noite,  ao se dirigir para aquele grande centro comercial, Marcos estava ciente da possibilidade de encontrar Clarice, remota visto o tamanho e a quantidade de pessoas no lugar, mas ela trabalhava lá e o encontro era uma possibilidade. Para ele isso se revelava como algo normal, afinal já estava tudo resolvido entre os dois, não tinha porque ficar nervoso, com mãos trêmulas e sorriso bobo no rosto.

Sentado Marcos fica a ler seu Bolaño, ri com o livro, grifa, mergulha na obra, o mundo ao seu redor é totalmente ignorado. Mas eis que uma sombra atinge seu campo de visão e ele tem a certeza de que é ela. Quando se ama uma pessoa sua simples sombra é suficiente para o reconhecimento.

5 minutos de tensão. O coração dispara e parece querer sair pela boca, fica com um sorriso preso, sente medo de que alguém perceba toda aquela agitação, seu coração acelera mais e mais e ele teme ser visto, logo recupera a consciência de que ninguém  jamais saberá o que se passa dentro dele, então começa a se acalmar, finge continuar a ler o livro, mas nessas alturas as frases já perderam o sentido e ele não consegue focar em nada, o coração não para de pulsar, acelerado, apressado, no desespero de se levantar, correr para ela e dizer: TE AMO.

Pobre Marcos, quando  pensa que  esqueceu  aquela menina, o seu coração acelera dizendo: se enganou. 

 

Olha discretamente ao redor, tenta localizar Clarice em meio a tantas pessoas. Destino pensa. Ela entrar justo na sala em que eu estava aguardando meu amigo? Sentar em uma mesa próxima? Entrar aqui nos únicos 10 minutos que aqui sentei? Destino!

 – Amanhã ela me ligará. – sorri. Adorava essas conversas despretensiosas para saber como estava, desculpa para se manter vivo. Por um minuto pensa no discurso do novo namorado de Clarice quando ele se levantar e for embora. Óbvio, ele sabe que aquele sentimento de Marcos e sua mulher é único, é forte e é eterno. O namorado dela olha para Marcos com olhos de fúria, se um olhar matasse ele já não estaria vivo. Paulo sabe que ela já quis o abandonar várias vezes e correr para os braços de Marcos, só não o fez por insegurança, orgulho. Ele sabe que essa distância dos dois não levará muito tempo e na mesma proporção seus minutos ao lado daquela mulher estão a terminar.  

 

Acelerou, bateu, emocionou e passou. Ele levanta, abraça o amigo e sai sem olhar para trás.  Satisfeito, pois sabe que sua simples presença ali foi capaz de abalar os pilares de Clarice.

 

Abraços, 

Sofia Aimée

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s