Um dia (in)comum.

Acordei atordoada. A mesma sensação de todas as manhãs de “Por que acordei?”.  O sol entra timidamente pela fresta da janela, o aviso de que mais um dia se inicia.  Um olhar rápido pelo quarto enquanto levanto lentamente e  procuro por forças, aquelas perdidas na noite anterior e que, provavelmente, não encontrarei.

Não sei muita coisa, na verdade a única certeza é essa, a de que não sei. Antíteses sempre me acompanham, acredito que eu já seja uma.  Sem saber, tomo consciência de que não quero essa sensação, preciso de mudança(s),  bastava apenas saber o que mudar (pode me ajudar?).

Penso então nos meus anseios do presente anterior e de como esperava estar nesse presente. Balanço a cabeça, definitivamente não era assim. Não desejava o mediano, o meio termo. Branco ou preto, sem tons de cinza. Queria estar sempre nos extremos e estou, mas no extremo oposto ao sonhado.

Um vento gelado entra sorrateiramente e coloca no chão alguns papéis. Rapidamente faço com que voltem a ocupar a mesa de estudos, aquela que já não uso há algum tempo, já que me transferi para a sacada, na qual estudo e me distraio com mais facilidade. Dos papéis pelo chão, um pequeno chama atenção, era seu, na verdade meu. Sua letra, escrita firme. Por alguns instantes me vejo em um abismo, logo em seguida em uma estrada com duas direções,  ler ou guardar. Como sempre, estou na dúvida, indecisa como você conheceu e seguindo a regra: “Na dúvida e na possibilidade de, fique  com os dois.” Leio e guardo-o. Os olhos ficam embaçados por uma névoa inexistente e presente, misturam-se com lágrimas sólidas  que insistem em não me abandonar.

Vivo em constante estado claustrofóbico, dentro de mim, presa em meus pensamentos e junto aos meus medos. O despertador toca mais uma vez, é a terceira, o aviso de que eu já deveria estar saindo do banho. Caminho até a pia do banheiro,  lavo o rosto, a água gelada me traz algumas e boas lembranças, me olho. Quem é aquela refletida no espelho? Fico por mais alguns minutos buscando encontrar aquela menina alegre e cheia de esperanças que fui um dia. Isso, pretérito perfeito. Aquela menina ingênua e cheia de sonhos não existe mais,  ninguém se mantém puro frente aos obstáculos da vida, aos amores perdidos, as ilusões criadas, aos planos abandonados, as pessoas feridas e por ela magoadas, (…). Caminho para o banho, deixo que a água escorra pelo meu corpo por alguns minutos, era como se naquele momento o mundo parasse para mim. Mas, não. Por mais que o deseje ele jamais para.

Poucos entenderiam o meu sofrimento. O sofrimento alheio é sempre desprezado uma vez incompreendido. Não quero que entenda aquilo que sinto, só peço para que não venha com aqueles discursos de que existe gente em situação bem pior, em hospitais, suplicando pela vida e toda essa balela (coisas piores? Sempre existirão. Deixe de ser hipócrita e fingir que se preocupa com o outro, pois no fundo você é um completo egoísta e falso moralista).

Em meio a transitória impossibilidade da vida o  sofrimento é  a demonstração de que sou sobrevivente daquilo que vivi. E isso se faz necessário neste momento. Busco esquecer, apagar tudo aquilo que me atormenta, mas a amnésia é apenas um desejo. Jamais se esquece a dor do abandono.

Volto para cama ignorando minhas obrigações e deveres.  Abraço meu travesseiro desejando abraçar-te, esperando que meu passado seja como o poema de Clarice e que com um outro olhar  ele se transforme.

Ninguém avisou que com o amor vinha junto o ciúme,  os desentendimentos, as brigas e a dor do seu fim. Nossos desejos não são mais comuns e você preferiu partir deixando seus fantasmas comigo, sinto muito mas levantei e os mandei embora. Minha casa já estava apertada e a presença deles me matavam todos os dias, principalmente por me lembrarem de que você não estava mais comigo.

Disseram-me que isso iria passar, está passando, finalmente está passando. Pego o telefone e ligo para a Lacuna Inc., marquei hora para apagar minhas lembranças, a única coisa que ficou de nós.  Desligo o telefone, agora tenho um sorriso na face. É a certeza de que amanhã pela manhã você não será mais nada, apenas mais um rosto na multidão.

Adeus.

 

 

 

Abraços,

Sofia Aimée

 

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6 comentários em “Um dia (in)comum.

  1. Adorei aqui, bacaninha ver que ainda existem blogs legais e com boa referência em literatura.
    Voltarei mais vezes.

    Um dia (in)comum. Parece que me vi nesse texto…
    Bjos da Guta

  2. Perfeito como vc coloca em palavras aquilo que eu vivo. Tb assinaria como meu tanto foi a identificação… E o Marcos e Marina? Gostava tanto deles…….

    Joyce –

    1. Que bom (?)! Preferia talvez que não houvesse tanta identificação, rs. Porém, isso comprova que na essência as pessoas dividem as mesmas aflições e situações, e ainda que não sejam similares, se interceptam.

      Marcos e Marina: logo voltam, tiraram férias, hahaha.

      Abraços e Obrigada,

      Sofia Aimée

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