Um castelo de cartas.

Acordou atordoado. Pulou da cama e correu ligar o notebook. Colocou os óculos. Nada de criminoso, era apenas seu ritual ao escrever, precisava sempre deles. Sua proteção e direção. Não sabia o que iria escrever, mas seja lá o que fosse, era preciso estar preparado.

Ficou sentado em silêncio na tentativa de escutar suas ideias, seu coração. Há meses que mente a si mesmo dizendo que não a ama, que não sente mais nada, que vive muito melhor sem ela, que realmente ela era irritante e possessiva e muitas outras coisas. Só agora toma consciência de que não consegue mentir para si, é conhecedor da verdade ainda que prefira não. A amava e sentia saudades de cada defeito dela.

Foi inevitável olhar para seu passado. Há quatro anos começava a montar seu castelo de cartas (Sua vida era feita de pequenas partes, cartas). Um bom trabalho, alguns amigos, um pequeno, mas confortável apartamento, seu tão sonhado jeep, seus livros, coleção de CDs, seu pequeno e inseparável moleskine e, a peça chave, Marina, que estava ali para ele todos os dias, a qualquer hora, sempre (talvez esse tenha sido o problema, ela sempre esteve ali. A ausência nos permite perceber se algo faz ou não falta, nos faz valorizar, Marcos não teve isso). Era ela que lhe ajudava a colocar cada carta, montar cada andar de seu castelo.

Era isso que ele havia construído, um castelo de cartas, falso e instável. Suas cartas estavam sempre caindo com pequenas brisas, outras sendo colocadas com muita alegria, mas suscetível sempre ao externo. Por que é que não construiu um castelo de pedras? Idiota. E se tivesse colado cada carta? Agora era tarde, estavam todas no chão, tortas e impossibilitadas de uso. Juntou todas, guardou-as. Deveria jogá-las fora, porém no fundo ainda tinha a esperança de que um dia venha a montar mais uma vez seu castelo. Poderia começar hoje mesmo, mas, uma carta já não faz mais parte daquele baralho, deixando-o incompleto. Cogitou em usar um dos quatro curingas na tentativa de substituí-la, mas como em qualquer jogo, o curinga é apenas um tapa buraco. Aquela carta ele guardara em segredo, na esperança de que um dia ela possa novamente fazer parte do seu baralho e assim se juntar as outras, que sem ela perderam a beleza e razão de ser.

Queria ter certeza de algo para escrever, porém a única certeza que tem é a necessidade dela, a saudade e a falta que ela faz. Fechou  o notebook, colocou seus óculos sobre ele e deixou que seu corpo escorregasse pela cama. Os olhos apertados, estavam mais uma vez cheios de lágrimas. Dormiu.

 

* Marina, se quiser voltar, Marcos deixou sua chave debaixo do tapete, vá sem avisar, ele ainda está a te esperar.  Todos erram, arrependem-se e ainda que impossível, mudam. Volta!?

Abraços,

Sofia Aimée


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3 comentários em “Um castelo de cartas.

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