Ausência

Ele acordou. Olhou para o lado e percebeu que estava só. Foi ao banheiro, a cozinha, a sala… Percorreu todos os cômodos da casa na esperança de encontrá-la.

Não, Marina não estava lá. Não dormira lá aquela noite. Voltou para o quarto. Dirigiu-se em desespero até o closet. Vazio. Nenhum sapato, nenhuma bolsa, nenhum vestido sobre o sofá. Nenhum resquício da desorganização de Marina que ele tanto odiava e agora sentia falta. Voltou para cama. O criado-mudo estava vazio, nenhum livro, nenhum dos caderninhos de anotações que viviam ali, nada.

 Marina não só o deixara sozinho como levara com ela toda e qualquer lembrança, qualquer coisa que denunciasse que um dia ela esteve ali, junto ao corpo de Marcos, dividindo a mesma cama e tomando todos os edredons para si.

Fechou os olhos. Queria se lembrar de antes, do momento em que aquele espaço não era apenas seu, mas dela. Lembrou-se de quando ela se deitava e começava a falar coisas sem sentido, era sono. De quando acordava durante a noite com uma brilhante resposta para aquele projeto, e, então, procurava um dos seus caderninhos de anotações, desesperadamente, no medo de que a ideia lhe fugisse se esperasse até o amanhecer. De quando ela tirava todas as roupas do armário e gritava que não tinha o que vestir. De quando ela dispunha os livros no criado por ordem de leitura. De quando ela sorria e o beijava. De quando ela o amava e havia reciprocidade.

Fechou os olhos com mais força como se isso pudesse trazê-la de volta, como uma criança quando faz um pedido ao ver uma estrela cadente. Desejou Marina. Era o que ele queria. O telefone tocou retirando-o daquele estado de inércia. Uma lágrima escorria a face, era ausência dela, a incerteza de que algum dia ele iria tê-la novamente, e, em um segundo, dizer a ela o quanto a ama e o quanto sua falta tem corroído os seus dias. Marina não está mais com ele, mas onde estará? Será que só? Ele não sabe, prefere a incerteza a saber aquilo que irá doer.

(O telefone continuou a tocar… era ela, mas como ele poderia saber?)

 

Abraços,

 

Sofia Aimée

Anúncios

Um comentário em “Ausência

  1. queria ter certeza dos destinatários dos teus textos… por mais que você diga que muitas vezes são para ninguém, eles parecem carregar sentimento demais para serem somente palavras ao vento…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s