Noticiário de uma manhã…

TV no canal de noticiário. Dentre tantas notícias, uma lhe chamou atenção:

“Homem bomba de burca mata 18 pessoas no Afeganistão. Vinte e duas pessoas ficaram feridas na explosão, que ocorreu perto de um posto policial. O suicida estava usando vestimentas típicas das mulheres (…)*”

A voz do repórter foi sumindo e Marcos se perdeu, mais uma vez, em seus pensamentos.

[…]

Um homem-bomba. Um terrorista que explode, ameaça e surpreende. Como saber quem é ele? Apenas após a explosão, já em meio à fumaça e desespero, é que ele se revela. Sua identidade é então pesquisada, e aquele que achavam ser uma mulher era apenas um homem disfarçado. Que ideia!

Marcos queria ser uma ameaça, surpreender sem palavras, sem nenhum sinal. Já está a ponto de explodir e seu alvo no momento não é uma, duas, três ou 18 pessoas. Seu alvo é apenas um, é Marina. Deseja incendiar. Queria encontrar ela na rua, mirar e lhe acertar. Ameaçar com sua presença doce e seu ato grosseiro.

Está a explodir, já programou tudo, só falta encontrar ela. Imagina-se caminhando por uma rua, e, em meio a tantas pessoas, encontrar ela, seu alvo. São rostos sem nomes, não sabem de nada, muito menos que correm o risco de serem atingidas pelo fogo de uma paixão, por um amor que está prestes a explodir. Pessoas que serão feridas pelo desejo de alguém que não as conhece e não se intimida com suas presenças. Como um ataque terrorista, Marcos é uma ameaça silenciosa.

Hoje talvez Marina nem se lembre dele, já tenha o esquecido. Porém, Marcos sabe que ainda há, em algum lugar, uma lembrança sua em Marina, prefere acreditar nisso. Deixou com ela algumas marcas, assim como ela fez com ele. Feridas deixam marcas, estas cicatrizes que o tempo não apaga, apenas disfarça.

Então, por meio de inúmeras sinapses, perguntas lhe aparecem: Será que se lembra de mim ao escutar aquele CD que tanto custei a encontrar? Quando vai até a panificadora e pede o seu doce preferido, mas avista ao fundo o que tanto gosto, ela se lembra de mim? Será que ainda tem aquela fotografia na qual aparecemos juntos? Os bilhetes que ele lhe deixava pela casa e a faziam sorrir? Será que ela se lembra o que lhe fez se apaixonar por mim?

Mas a pergunta que permeava todas as outras, atravessando e interrompendo, era,  o que a fez deixar de amá-lo. Provavelmente, aquele amor não representava para ela o mesmo que para ele, era idealização. Marcos não sabe. Fica a imaginar, a pensar. Procura esquecer Marina da forma como ela demonstra ter feito. Sim, ela deve ter o esquecido. Só o esquecimento justifica tal desaparecimento.

Olha novamente para TV, a notícia já é outra. Incrível como o noticiário consegue pular rapidamente de uma desgraça para a notícia de um show de rock, ou da visita de alguma autoridade ou informações sobre saúde. Nessa reflexão, pensa novamente em Marina (por mais que tente não consegue esquecer). Incrível, pois, ela também possui essa capacidade. Pula de galho em galho, em alguns permanece alguns instantes, depois segue para outro e já nem se lembra daquele que por tanto tempo lhe serviu de abrigo, moradia.

Começa a chorar, e do choro vem o desespero. É a certeza de saber que ela não vai voltar, de que já está em outra árvore e não pretende retornar. E, se ainda, em um futuro distante, isso acontecer, será que ele ainda vai querer? É bem provável que os galhos de Marcos já estejam protegidos por espinhos no lugar de flores.

(Marina: – Volte enquanto ainda há flores!)


Abraços,

Sofia Aimée


———-

*trecho de matéria do site G1 de 15 de maio de 2008

Anúncios

2 comentários em “Noticiário de uma manhã…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s